2005, o ano que já terminou

2007 terminou para o Internacional. Depois de perder o Gre-Nal, empatar com o bisonho Atlético MG (após estar ganhando por 2 a 0) e perder para o São Paulo em casa, nada mais resta para os colorados, a não ser ganhar os pontinhos que faltam para garantir uma vaga na Copa Sulamericana. E deu pra bola, é férias e planejar 2008.

Para tentar minimizar um pouco o fiasco que foi a temporada, a diretoria do Inter e a tacanha imprensa esportiva gaúcha tentam ressuscitar um Campeonato que já acabou: 2005. Tudo isso baseado num telefonema grampeado entre o presidente afastado do Corínthians Alberto Dualib com o empresário Renato Duprat. Numa autêntica linguagem de boteco, Dualib fala que o título foi ganho "roubado", entre outras pérolas.

Foi o que bastou para todos os jornalistas esportivos do Estado assumirem o papel de bastiões da liberdade, da justiça e defensores do futebol dos pampas (quaquaqua) e exigirem que o Campeonato Brasileiro de 2005 seja dado ao Internacional. É claro que a direção colorada não perdeu tempo e adotou o discurso de ir buscar seus direitos até o fim, assim como no final de 2005, onde acabaram abrindo as pernas após uma leve pressão da CBF.

Os argumentos colorados se baseiam em dois fatos: a atuação calamitosa do árbitro Márcio Rezende de Freitas, que não assinalou um pênalti em Tinga e ainda expulsou o meio-campo colorado, e a anulação de jogos feitas pelo presidente do STJD, Luís Zveiter, após o escândalo da arbitragem protagonizado por Edílson Pereira da Silva. Em ambos os casos, os dirigentes do Inter afirmam que há a mão da MSI-Corínthians para beneficiar o clube paulista. Bem, vamos analisar os fatos.

Em primeiro lugar, a questão do árbitro Márcio Rezende de Freitas. Para resumir em uma palavra: esqueçam. A verdade é que Márcio estava tendo uma atuação excelente, até que cometeu um erro monumental. O pênalti foi claríssimo, daqueles de concurso, daqueles que até o pipoqueiro fora do estádio viu.

Só que o erro faz parte do jogo, infelizmente. Não há o que o Internacional possa pleitear, por mais raiva que isto possa causar. Até porque o próprio time gaúcho foi beneficiado pela arbitragem em pelo menos duas ocasiões no mesmo Campeonato: contra Brasiliense (o gol da vitória nasceu de uma jogada em impedimento) e contra o São Caetano (que teve um gol mal anulado). E se erros de arbitragem pudessem levar a CBF a mudar um título, então o Grêmio pode pleitear o Campeonato Brasileiro de 1982 e o Santos o de 1995.

A única coisa a ser feita, nesse caso, seria tentar uma punição para o árbitro, com a CBF colocando-o na geladeira, ou vetá-lo para os jogos do Inter. Mas como era a última partida da carreira de Márcio Rezende, nem isso seria possível.

A única possibilidade seria o Inter provar que Márcio estava comprado pela MSI para beneficiar o Corínthians. Só que, como já foi falado, Márcio estava tendo uma grande atuação até aquele lance. Se ele tivesse mesmo sido comprado, o que seria uma estupidez, pois ele iria se queimar justamente na sua partida de despedida, com certeza haveria outros lances polêmicos na partida. Mas não é o caso.

Além disso, mesmo que o Internacional prove o suborno, é muito complicado usar isto como argumento, pois estaria dando razão a Luís Zveiter na questão da anulação dos jogos. Afinal, porque mudar o resultado de uma partida por um suborno e não anular as outras pelo mesmo motivo? É uma questão de coerência, e falta de coerência é fatal em qualquer tipo de julgamento.

Em segundo lugar vamos à anulação dos jogos. É preciso dizer que, nas suas duas partidas apitadas pelo Edílson, contra Santos e São Paulo, o Corinthians havia perdido e reclamando muito da atuação do árbitro. Edílson foi acusado de provocar o jogador Tevez, chamando de "gringo de merda" (entre outras coisas), o que provocou a ira do argentino e o levou a ser expulso. A ira da torcida paulista foi enorme, e o árbitro corria risco de vida se encontrasse a Fiel na rua. Edílson acabou vetado pelo Corinthians para seus jogos, e tudo isso ANTES do escândalo.

É evidente que, quando o árbitro foi denunciado por corrupção e acabou confessando que era pago por um site de apostas "para garantir alguns resultados", o Corinthians pediu a anulação de ambas as partidas. A pressão foi enorme. Aliás, pouca gente percebe a batata quente que Zveiter tinha na mão. Qualquer que fosse a sua decisão, seja anular os jogos ou manter os resultados, ele seria odiado até o fim da vida por uma torcida: ou a colorada ou a corinthiana.

Claro que, tecnicamente, a decisão mais correta seria manter os resultados. A decisão de anular os jogos realmente não foi a melhor. Mas isso não interessa. Depois de decidido por um Supremo Tribunal, por mais que se discorde do resultado, não se volta mais. A única alternativa seria provar que Zveiter tenha sido subornado, ou seja, ganho dinheiro para tomar a decisão. Esse seria o único trunfo do Inter para mudar os rumos do Campeonato de 2005. Mas o clube precisaria de provas concretas. Se as conseguir, não só leva o Campeonato de 2005 como coloca o Corínthians, inevitavelmente, na segundona (se bem que isso talvez nem fosse necessário, a julgar pelo que vem jogando o time paulista). Caso contrário pode esquecer.

No final das contas, o Inter perdeu a chance de reverter esse campeonato em 2005. Foi incompetente, quase amador, e cometeu três erros gravíssimos ao conduzir a questão.

O primeiro foi a omissão. Logo que estourou o escândalo, os dirigentes colorados confiaram que Zveiter iria manter os resultados e se manteve impassível, sem levar em conta que o Corínthians, que junto com a MSI havia gasto milhões em busca do campeonato, fazia uma grande pressão para que seus jogos fossem anulados. Deveria ter tentado fazer a sua pressão, buscado o apoio de outros clubes interessados, como o São Paulo e o Santos (que também só resolveram agir depois). Mas nada. Ficou paradinho esperando que o bom senso vencesse. Até parece que não estão no Brasil.

O segundo foi a ira, tanto da direção quanto da torcida e da imprensa esportiva gaúcha. Ao anular os jogos, Zveiter foi chamado de "pavão tagarela" (sic), foi dito que o STJD era uma "quadrilha" (sic), e mais uma série de coisas pouco lisonjeiras. Só que essa raiva foi na hora errada, pois a anulação seria revista um mês depois. Essas manifestações acabaram sepultando qualquer esperança de que Zveiter mudasse de opinião. Nessa hora, o Inter precisaria ser mais político, administrar a questão com inteligência, e não berrar como um dirigente de clube de várzea.

E por último, o Inter cedeu à pressão da CBF. Levou um cutuco, foi ameaçado de não participar da Libertadores e acatou a decisão. O presidente Fernando Carvalho e os jogadores, inclusive, foram à festa de encerramento do campeonato promovido pela entidade, tiraram fotos, e sorriram como se nada tivesse acontecido. Ou seja, na hora de mostrar que tem farinha no saco para buscar seus direitos, o clube amarelou feio.

Pois então é isso. Acabou. Game Over! Aliás, parece que não existe Ano Novo para os dirigentes colorados. Acham que 2005 não terminou, acham que 2006 não terminou e não perceberam que, para o Inter, 2007 também foi pro saco.

Já o Grêmio, mesmo sem ataque, segue firme em busca de uma vaga na Libertadores. Contra o Juventude deu a lógica, 2 a 1 sem maiores sustos, apesar da força que o time caxiense fez para ganhar a partida. Até disparar o alarme de incêndio do hotel em que a delegação gremista estava hospedada foi tentado para intimidar o Tricolor. Mas não adiantou nada, e o Juventude segue na sua caminhada em direção à segunda divisão em 2008.

Jarbas Schier