Call of Duty

A franquia de games sobre a Segunda Guerra Mundial parece infinita, não importa o quão repetitiva e genérica tenha se tornado. O último game a sair desta fonte inesgotável é Call of Duty, que vem cheio de recomendações e críticas positivas, mas no fundo é apenas um game razoável que requenta com grande competência todos os clichês do gênero numa nem tão nova embalagem.

Desenvolvido pela Infinity Ward, empresa formada por dissidentes da equipe que criou a série Medal of Honor, e distribuído pela Actvision, Call of Duty não conta necessariamente uma história. O modo single player é dividido em três campanhas distintas que não se interligam e nas quais você irá lutar ao lado de americanos, britânicos e russos.

A primeira impressão que se tem ao jogar Call of Duty é que se está jogando mais um game da série Medal of Honor Allied Assault. Isso não é necessariamente ruim, mas também não é algo digno de tanto elogio como se tem visto por aí. A diferença é que Call of Duty dá ênfase ao jogo em equipe. E por equipe entenda estar sempre acompanhado por meia dúzia de soldados controlados pelo computador, com os quais você não interage de forma alguma.

O que significa basicamente que eles não lhe obedecem, mas você tem que obedecê-los incondicionalmente. Muitas vezes atropelando completamente a lógica e a hierarquia militar. São raras as vezes que você irá fazer uma missão totalmente sozinho. Tá certo que quando as coisas se complicam é você quem tem que resolver a maioria dos problemas. Principalmente aqueles relacionados a tanques. Pois aparentemente só você está capacitado a disparar uma bazuca em todo o exército aliado. Mesmo levando em conta o tão apregoado jogo em “equipe” a jogabilidade de Call of Duty não tem muito mistério ou inovação. A maioria das missões do game seguem uma rotina de conquista e subsequente defesa do lugar conquistado até chegada de reforços.

Como em outros games da WWW II tem-se a impressão que a guerra foi vencida por quem tinha o melhor sniper. Na verdade as fases em que por alguma razão os desenvolvedores resolveram omitir esse apetrecho, acabam sendo as mais difíceis do jogo.

Os programadores do game também não conseguiram ir muito além do trivial no quesito desafio. A maioria das situações são semelhantes as do MOHAA: você tem sua dose usual bunkers, snipers e metralhadoras entrincheiradas, você tem sua dose de fugas heróicas em caminhões e carros e, como não poderia faltar, você tem sua chance de dirigir um tanque de guerra.

Tudo isso você já viu antes. De novidade temos uma missão passada num navio de guerra alemão, que além de inverossímil é de longe a mais fraca do game. E uma rara missão solo em que você precisa sabotar os geradores de uma represa, que resulta numa das fases mais gratificantes do jogo.

O grande destaque em termos de ação e design fica com a campanha russa, que pela primeira vez é vista num game do gênero. Vale ressaltar a reprodução da retomada de Stalingrado. Onde num cenário parecido com o desembarque da Normandia você precisa atravessar a linha de fogo inimiga sem arma alguma, apenas com a munição.

Acontece que os comandantes russos para garantir que seus bravos camaradas não amarelacem na hora H davam um rifle para um soldado e a munição para outro. E os dois que se entendessem no campo de batalha. Apesar da premissa absolutamente insana, essa fase acaba sendo a mais frustrante do game, pois não importa quantos soldados russo carregando rifles morram ao seu lado, o game não permite que você pegue os mesmos. Esse é um tipo de limitação boba que não faz muito sentido. Ao menos ela é revertida na fase seguinte e não compromete muito o resto da campanha russa.

Outro detalhe interessante é que fazendo jus a História, o que não é muito comum em games do gênero, estamos falando em particular do supracitado e ultrapatriota Medal of Honor, a última campanha do game, que se passa obviamente em Berlin, é protagonizada pelos russos, e não por americanos. Sendo que na conquista final da Reichstag é uma bandeira russa que é hasteada.

Call of Duty se orgulha em ser um jogo de ação continua, não existe sequer a opção de caminhar no game. Esse não é definitivamente um game de sneak ou stealth. Na verdade Call of Duty recorre com insistência em fases que mais parecem uma ’galeria de tiro’ onde alvos aleatórios saltam na tela direto para a mira do seu sniper ou metralhadora.

Você também não precisa se preocupar em abrir portas ou armários. Como resultado o game fica ainda mais linear do que de costume. Já que não existe necessidade alguma de explorar os cenários. Essa decisão dos programadores não evita o velho truque do nazista que sai atirando de uma porta que estava previamente fechada minutos atrás quando você passou por ela. Outro problema é que o game é inteiramente roteirizado, ou seja, todos os eventos já estão pré-escritos e não há nada que você possa fazer para mudá-los. Isso acaba prejudicando a tão desejada ação, que fica limitada a repetição de uma série de eventos. O que também não ajuda muito no fator linearidade.

O modo multiplayer do Call of Duty serve para confirmar a máxima que diz que nenhum game desenvolvido a partir do engine do Quake 3 se sustenta por muito tempo. O game trás, no entanto, uma novidade em multiplayer, um dispositivo chamado Kill Cam no qual o jogador pode rever os 10s anteriores a sua morte, que apesar de interessante é pouco usual. Fora isso o multiplayer de Call of Duty é de uma mediocridade galopante, incapaz de chegar aos pés de Day of Defeat. Ainda o melhor multiplayer baseado na Segunda Guerra Mundial, pois afinal usa o engine do Half-Life.

Enfim não importa o que digam por aí esse game parece uma continuação não oficial de Medal of Honor, em especial do pacote de expansão SpearHead. E de certa forma superior a ambos. Call of Duty é muito mais bem acabado e possui um modo single player bem menos frustrante que MOHAA, e por ‘frustrante’ entenda difícil pelas razões erradas como certo game sobre medalhas e honra.

Call of Duty bate o seu predecessor em quase todos quesitos, com uma pequena exceção: o de ação. Sério. A linearidade e a AI caduca do Quake 3 simplemente acabam com as pretensões deste game. Além disso apesar de possuir três campanhas o modo single player é extremamente curto. As 25 fases do game podem ser completadas em menos de 10 horas sem muito esforço.

Resumindo, Call of Duty não é muito original, foi feito pelos mesmos caras que fizeram o MOHAA, inclusive usa o mesmo engine gráfico deste e possui uma inteligência artificial semelhante e ainda por cima é relativamente mais curto. Se você não gostou de MOHAA é bem possível que não vá gostar de Call of Duty, mas se você já é fã da série este pode ser o pacote de expansão que você estava esperando.

Saulo Gomes

Prós: Excelente design de fases. Menos frustrante que a concorrência. Talvez o melhor uso do engine do Q3 em todos os tempos, boa hora para aposentá-lo de vez.

Contra: Campanha single player extremamente curta. Quando eu joguei esse jogo pela primeira vez ele se chamava Medal of Honor.

Sistema Mínimo
Processador: Pentium III 700 Mhz
Memória RAM: 128 MB
Disco rígido: 1,5 GB
Placa de vídeo: 3D PCI/AGP 64MB
Sistema: Windows 95/98/2000/XP