A Paixão de Cristo

Se Jesus Cristo sofreu para salvar a humanidade, o espectador sofre para chegar ao fim do filme dirigido por Mel Gibson. A Paixão de Cristo é um pé no saco, um chute no olho, um soco abaixo da linha da cintura. A idéia da trama é transformar um dos maiores mitos religiosos da humanidade em uma espécie de guisado humano.

A Paixão de Cristo narra as últimas 12 horas do filho de Deus. E esse tempo não foi necessariamente um passeio no parque. Jesus é traído, espancado, humilhado, julgado, condenado e, finalmente, crucificado. Porém, o que interessa a Mel Gibson é mostrar o tormento, a dor e a tortura. E mais nada.

Por isso, ninguém apanha mais do que Jesus (Jim Caviezel). É um massacre. Ele jorra sangue por todos os lados. Chibatas e chicotes com pontas metálicas são usados com precisão pelos soldados romanos. O diretor aproveita para empilhar closes e mais closes tão desnecessários como chocantes.

Aliás, o filme poderia muito bem se chamar Espancando J. Cristo. O roteiro deixa claro que a ambição maior da trama é justamente transformar os momentos finais da vida de Jesus em um espetáculo de sadomasoquismo. Olho inchado, braço quebrado, corpo flagelado, tudo é motivo de alegria para Gibson. Às vezes parece que o diretor está prestes a entrar em cena para dar mais uns cascudos em Jim Caviezel.

Outro problema sério de A Paixão de Cristo é o excesso no uso da câmera lenta. Na verdade o filme parece contar só as seis últimas horas de tanto uso do estilo. As pessoas caminham em câmera lenta, espirram em câmera lenta, e, é claro, espancam Jesus Cristo em câmera lenta...

Na pausa entre uma tortura e outra, o roteiro tenta explicar quem foi Jesus Cristo, com o uso de raros e escassos flashbacks. Porém, a idéia central é ver Jesus verter sangue por todos os poros. Inclusive, para Mel Gibson, Jesus foi o inventor da mesa de jantar! Certamente, essa foi a atochada bíblica do milênio.

Mel Gibson, verdade seja dita, ainda teve coragem para realizar pelo menos uma ousadia. O filme é todo falado em aramaico e latim. A idéia, que apavorou os produtores de Hollywood, realmente funciona e talvez seja o único acerto do filme.

Diga-se de passagem que a A Paixão de Cristo se transformou em um imenso sucesso. Somente nos Estados Unidos, deve passar da barreira dos US$ 400 milhões. Como o filme custou apenas US$ 28 milhões, o ator australiano vai continuar prestigiado na indústria cinematográfica.

O curioso é que A Paixão de Cristo tem tudo para se tornar o filme mais visto sobre a história de Jesus. Ou seja, daqui a alguns anos é capaz que a patuléia pense que o filho de Deus foi uma espécie de Rambo que veio salvar a Terra, mas entrou pelo cano. E até hoje o mundo espera que ele desça dos céus para filmar a parte dois.

No fim das contas, Mel Gibson usou os mesmos truques de Coração Valente. Um herói solitário que enfrenta o poder estabelecido para libertar seu povo. Ambos, Wallace e Jesus tem um final trágico, mas conseguem seu objetivo.

Gibson, pode não ser um diretor genial, mas sabe que os tempos mudaram. Antigamente, o povo queria apenas pão e circo. Hoje quer pão, circo e violência gratuita. E isso A Paixão de Cristo tem de sobra...

P.S. - Apesar de todas as acusações o filme não é anti-semita. Mas o povo judeu poderia muito bem ir para a porta dos cinemas reclamar da ruindade do filme. Ou seja, Mel Gibson não é anti-semita é anti-cinema!!

Paulo Pinheiro

(The Passion of the Christ, EUA, 2004), Direção: Mel Gibson, Elenco: James Caviezel, Monica Bellucci, Maia Morgenstern, Rosalinda Celentano, Luca Lionello, Francesco DeVito. Duração: 127 min.

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