Você já reparou como a promessa era: “com a tecnologia vamos ter mais tempo livre”? No fim, estamos respondendo e-mail às 22h, rolando o feed antes de dormir e com a sensação constante de que estamos atrasadas em tudo: carreira, propósito, autocuidado, dinheiro.
Se você sente que vive “conectada” o tempo todo, mas desconectada de si mesma, este texto é para nós.
O problema não é trabalhar muito, é trabalhar desconectada de si
Trabalhar bastante não é exatamente o problema. O problema é quando:
- Você não vê sentido real no que faz.
- Seu corpo está pedindo pausa e você responde com mais café.
- Seu tempo livre é consumido por notificações, demandas e “só mais uma olhadinha no e-mail”.
- Você se compara o tempo todo com outras pessoas nas redes.
Em um mundo hiperconectado, tudo parece urgente e importante. Só que, na prática, o que geralmente fica de fora da agenda são justamente as coisas que mais nos alinham com nosso propósito e bem-estar: sono, silêncio, reflexão, presença com quem amamos, hobbies, estudo intencional.
Antes de falar de soluções, vale alinhar algumas ideias sobre “propósito”, porque isso também pesa bastante na nossa relação com a carreira.
O mito do “propósito perfeito” que complica nossa carreira
Muita gente sofre porque imagina que propósito é:
- Um chamado grandioso, tipo “mudar o mundo”.
- Algo fixo, que você descobre uma vez e vale para a vida inteira.
- Uma profissão específica (“meu propósito é ser X”).
Com essa visão, qualquer trabalho normal parece pequeno. Qualquer cansaço parece sinal de que “não era esse o caminho”. Aí pulamos de emprego em emprego, curso em curso, na esperança de, um dia, “finalmente descobrir o propósito”.
E se a gente simplificasse?
Uma forma mais leve de encarar propósito:
- É a maneira como você contribui e se sente útil hoje, com o que você tem agora.
- É dinâmico: muda com suas fases de vida, valores e limites.
- Não precisa ser igual ao seu cargo; pode se expressar em como você trabalha, não só no que você faz.
Com isso em mente, fica mais concreto alinhar carreira, propósito e bem-estar mesmo sem um “emprego dos sonhos”. Vamos olhar os sinais de que esse alinhamento está faltando.
Como saber se sua carreira está desalinhada do seu propósito e bem-estar
Alguns sinais práticos que vale observar:
- Cansaço que não passa: você dorme, mas acorda exausta. Não é só físico, é mental/emocional.
- Domingo à noite pesado: só de pensar em segunda-feira, o humor despenca.
- Sensação de estar sempre atrasada: mesmo produzindo muito, parece que nunca é suficiente.
- Vida pessoal em modo “resto de energia”: família, amigos, hobbies e autocuidado só acontecem quando sobra tempo (e quase nunca sobra).
- Dificuldade de desconectar: você checa e-mails e mensagens fora do expediente o tempo todo, mesmo sem obrigação direta.
- Autocrítica constante: você sente que “não está fazendo o bastante”, mesmo se esforçando além da conta.
Se você se identificou com vários desses pontos, não significa que “precisa largar tudo e recomeçar”. Significa que é hora de fazer ajustes conscientes. Em vez de buscar uma reinvenção radical imediata, podemos começar por pequenos realinhamentos.
Passo 1: Clarificar o que realmente importa para você agora
Falar de “propósito” sem clareza do que é importante para você, hoje, atrapalha mais do que ajuda. Pegue um papel (ou um bloco de notas) e responda com sinceridade:
- Quais são seus 3 valores principais neste momento? Exemplos: segurança financeira, liberdade de tempo, aprendizado, impacto social, estabilidade, criatividade, saúde, família.
- Qual é sua prioridade de vida nos próximos 12 meses? Pode ser: pagar dívidas, cuidar da saúde, fazer uma transição de carreira, ter mais tempo com seus filhos, fortalecer sua reserva financeira, estudar algo novo.
- O que você não quer mais tolerar na sua rotina? Ex.: trabalhar até tarde todos os dias, responder mensagem de trabalho de madrugada, aceitar tudo por medo de dizer não.
Isso já muda o olhar. Em vez de buscar “a carreira perfeita”, você passa a avaliar seu trabalho atual com perguntas mais concretas:
- Esse trabalho respeita minimamente meus valores?
- Ele pode financiar a mudança que quero fazer (curso, reserva, transição) sem me adoecer?
- Que pequenas adaptações eu posso negociar ou criar na minha rotina para que ele fique mais alinhado?
Passo 2: Auditar sua rotina digital (porque ela interfere direto no seu bem-estar)
Em um mundo hiperconectado, a maneira como usamos a tecnologia pode nos aproximar ou nos afastar de nós mesmas. Um exercício simples para fazer por 3 dias:
- Anote em blocos de 30 minutos o que você está fazendo no celular/computador.
- Marque com um asterisco os momentos em que você foi “puxada” por uma notificação.
- Ao final do dia, responda:
- Quantas vezes abri algo “só para ver rapidinho”?
- Quantas dessas vezes realmente eram importantes?
- O que eu deixei de fazer nesse tempo (descansar, terminar uma tarefa, almoçar com calma)?
Depois disso, escolha 2 limites digitais para testar por 7 dias. Algumas ideias:
- Definir 2 ou 3 horários fixos para checar e-mail e WhatsApp de trabalho.
- Silenciar notificações não essenciais.
- Deixar o celular fora do quarto à noite.
- Ter 1 “hora offline” por dia (sem telas), nem que seja só para caminhar, tomar banho com calma ou cozinhar.
Não é sobre virar monge digital. É sobre recuperar espaço mental para escutar o que você sente e pensa, sem interferência constante.
Passo 3: Redesenhar seu trabalho atual antes de tentar fugir dele
Às vezes queremos trocar de carreira, quando o que precisamos primeiro é testar formas menos dolorosas de viver a carreira que já temos. Perguntas práticas:
- O que no meu trabalho me dá energia? Ex.: conversar com clientes, resolver problemas, ensinar, organizar processos.
- O que mais me drena? Ex.: reuniões desnecessárias, urgências constantes, multitarefa, falta de clareza de prioridades.
- O que eu posso:
- eliminar,
- delegar,
- automatizar,
- fazer em bloco (batching)
dentro da minha realidade de hoje?
Alguns microajustes que podem fazer diferença:
- Agrupar tarefas semelhantes (responder e-mails de uma vez, preparar reuniões de uma vez, etc.).
- Negociar prazos mais realistas, quando possível.
- Criar “blocos focados” de 50 minutos sem interrupções para as tarefas mais importantes.
- Registrar o que você realmente entrega (projetos, melhorias, resultados) para enxergar seu impacto.
Esses ajustes já trazem uma sensação maior de propósito, porque você começa a ver resultado concreto e percebe mais claramente sua contribuição.
Passo 4: Colocar limites saudáveis sem culpa
Alinhar carreira e bem-estar passa, necessariamente, por aprender a dizer “não” – inclusive para si mesma.
Alguns limites que podemos começar a testar:
- Limite de horário: escolher um horário para encerrar o trabalho na maioria dos dias e se comprometer com isso como se fosse uma reunião importante.
- Limite de disponibilidade: deixar claro para equipe ou clientes quais são seus horários de resposta padrão (sempre com respeito, claro).
- Limite de perfeccionismo: definir o que é “bom o bastante” para cada tipo de tarefa, em vez de gastar energia demais em tudo.
- Limite com redes sociais: decidir quando e por quanto tempo você vai usar, em vez de entrar no automático.
Você não precisa comunicar esses limites com um discurso dramático. Pode ser simples, tipo:
“Costumo responder e-mails até as 18h. Se algo for realmente urgente após esse horário, pode me sinalizar por X canal.”
O objetivo não é ser rígida, e sim evitar que o “exceção” vire regra.
Passo 5: Criar rituais de bem-estar que cabem na vida real
Autocuidado não precisa ser um fim de semana em um spa. Aliás, na maior parte do tempo ele se parece mais com pequenas decisões diárias nada instagramáveis:
- Ir dormir 30 minutos mais cedo.
- Comer de verdade, longe da tela, pelo menos uma vez por dia.
- Fazer uma pausa de 5 minutos entre blocos de trabalho para respirar e alongar.
- Dar uma volta no quarteirão sem celular.
- Ter 10 minutos de silêncio (ou meditação guiada) por dia.
Um jeito simples de começar é escolher um ritual de manhã e um ritual de fechamento do dia.
Exemplo de ritual matinal de 10 a 15 minutos:
- 2 minutos de respiração profunda.
- 3 minutos para escrever: “Como eu quero me sentir hoje?” e “Quais são as 3 coisas essenciais desse dia?”.
- 5 a 10 minutos de movimento suave (alongar, caminhar pela casa, dançar uma música).
Exemplo de ritual noturno de 10 minutos:
- Anotar o que foi bem e o que pode ser ajustado amanhã.
- Fechar mentalmente o “turno de trabalho” (guardar computador, fechar agenda).
- Fazer algo que sinalize descanso para o corpo: banho quente, leitura leve, luz mais baixa.
Esses rituais funcionam como âncoras. Em um mundo hiperconectado, eles são lembretes diários de que você tem um corpo, um ritmo e uma vida para além das notificações.
Passo 6: Planejar a transição com os pés no chão (se for o caso)
Depois de ajustar o que é possível na sua rotina atual, talvez você perceba que ainda assim deseja mudar de área, cargo, empresa ou modelo de trabalho. Tudo bem. Só não precisa ser uma mudança impulsiva.
Algumas perguntas para organizar essa transição:
- Que tipo de trabalho se conecta melhor com meus valores e minha fase de vida agora?
- Quais habilidades eu já tenho que são transferíveis para essa nova direção?
- O que preciso aprender ou fortalecer para dar esse próximo passo?
- Quanto preciso ter de reserva financeira para me sentir segura nesse movimento?
- Qual é o menor experimento que posso fazer para testar essa nova direção (freelancer, projeto paralelo, curso curto, voluntariado)?
Em vez de “largar tudo”, pense em camadas de transição:
- Primeira camada: organizar finanças, diminuir gastos desnecessários, montar uma reserva.
- Segunda camada: estudar, conversar com pessoas da área, fazer pequenos projetos teste.
- Terceira camada: reduzir gradualmente o atual trabalho (se possível) ou buscar uma vaga intermediária mais alinhada.
Propósito, aqui, não é um destino mágico. É o jeito como você escolhe caminhar, mesmo quando ainda não está onde gostaria.
Alinhando carreira, propósito e bem-estar na prática do dia a dia
Para facilitar, aqui vai uma espécie de mini roteiro que você pode revisitar sempre que sentir que está se perdendo de si mesma:
- Pare por alguns minutos (literalmente, respire, feche os olhos, coloque os pés no chão).
- Observe: como está seu corpo? Tenso, exausto, acelerado?
- Nomeie: qual é o principal incômodo agora? Excesso de trabalho, falta de sentido, culpa, comparação, medo financeiro?
- Escolha um microajuste para hoje:
- Um limite digital a testar.
- Uma conversa honesta que você precisa ter.
- Uma tarefa que você pode delegar ou simplificar.
- Uma pausa verdadeira de 5 minutos entre reuniões.
- Registre no fim do dia:
- O que você fez diferente?
- Como se sentiu?
- O que gostaria de repetir amanhã?
Não precisamos virar outra pessoa da noite para o dia. Precisamos, aos poucos, voltar a ser mais quem já somos – só que com menos ruído, menos culpa e mais intenção.
Carreira, propósito e bem-estar não são três caminhos separados. Eles se encontram quando:
- Você sabe o que é importante para você neste momento.
- Você coloca limites claros para proteger seu tempo e sua energia.
- Você usa a tecnologia como ferramenta, não como dona da sua atenção.
- Você se permite avançar em passos pequenos, porém consistentes.
Se fizer sentido para você, escolha uma coisa deste texto para aplicar hoje. Não amanhã, não “quando a correria passar” (porque ela raramente passa). Hoje.
Talvez o alinhamento que você está buscando não esteja em uma grande mudança, mas no próximo limite que você coloca, na próxima pausa que você se autoriza, na próxima vez em que você escolhe se ouvir antes de responder a mais uma notificação.
